domingo, abril 15, 2007

..:: Domingo ::..

Domingo cinzento aqui na terra do "leite quente".
Fiquei pensando no que gostaria de fazer no dia de hoje. Eu gosto de domingos assim. A gente pode aproveitar pra ficar em casa, debaixo das cobertas vendo aquele filme ou documentário na tv a cabo. Ou ainda pegar aquele livro que está na cabeceira e adiamos o começo da leitura sabe? Hoje estou fazendo um pouco de tudo. Resolvi escrever um pouco e depois vou ler. No momento estou com três livros começados. Porque será que não consigo ler um de cada vez? Tenho sempre que acumular três ou quatro livros numa tacada... hehehe. Chamem de mania, esquisitice ou qualquer coisa. Sou assim, sempre fui meio esquisita mesmo!!! Fazer o que?Não é a essa altura que vou mudar né.
Pois bem... estou lendo, entre outras coisas: "Fábulas" de La Fontaine (só li as primeiras, não tenho muito o que comentar ainda, mas sei que gosto do sarcasmo como ele apresenta a vida e seus personagens); estou lendo também: "A lei do triunfo" de Napoleon Hill, livro mais complexo, tenho que ter mais tempo para digerí-lo, mas gosto do conteúdo.
E o que mais tem tomado meu momentos de prazer literário: "Cascos & Carícias & Outras Crônicas" de Hilda Hilst. O que é essa mulher escrevendo. Me divirto com seu modo agressivo e seu humor negro. Outro dia, eu no ônibus e pra passar o tempo um pouco de Hilda. Ela falando sobre o nu masculino das casas de strip para mulheres. De como a coisa fica velada, de nunca mostrar o "dito-cujo" como ela mesma fala. E de repente, solto eu uma gargalhada. Todo o pessoal do ônibus olha pra mim com aquela cara de "coitada, deve ser louca a pobrezinha!!". Enfiei a cara no livro e fui em frente. A Hilda consegue com suas crônicas dizer a verdade crua sem rodeios. Amo a maneira como escreve e suas loucas reflexões diante dos assuntos. Recomendo o livro, muito bom. Mas esteja preparado e tenha estômago. Ela não se esconde atrás das palavras.

Voltamos agora para o dia cinzento daqui da "Terra das Araucárias" vou me recolher ao meu mundo, aos meus livros e filmes. Quem sabe um blues para embalar a leitura... quem sabe o silêncio.

.:É isso:.


A seguir a crônica de Hilda citada no post:

" Por que não?"

Acho muito saudável o modismo de nus masculinos em certos clubes para mulheres. O triste é que não fiquem completamente nus. Porque, afinal, o que há com o "pantaleão", ou "ferramenta", ou "cana", ou "camanho", ou "ponteiro", o que há com ele que não pode ser visto? Nestes tempos pestilentos, eu, "minha gente", saio correndo de alguém me mostrar o dito-cujo. Com sessenta e dois anos de idade também duvido que alguém me mostre algum. Mas é sempre profícuo, para uma fantasia completa, projetar o cara inteirinho. A cabeça de cima, o nosso valioso pré-frontal, pode ser cortada para esse tipo de fantasia. Os
acéfalos são até mais estimulantes. Os bossa-gorilões. Já pensaram que tedioso uma fantasia sexual com o Oppenheimer ou o Albert, por exemplo? Haja neurônios. Bem, então, sem a cabeça de cima, tudo bem. Mas todo o resto (!) é importante: dorso, omoplatas, cintura, ancas, nádegas, e aquilo tudo lá de cima que nesse instante também podemos chamar de "envernizado", ou "coluna do meio", na sua mais nova sinonímia decorrente da loteria esportiva (consultar o dicionário de Mário Souto Maior). Importantíssimo. Vejamos: você está ali deitada, projetando aquele cara apolíneo, e vai descendo o olhar, descendo, descendo e, de repente, o susto, aquela "bimbinha", aquela "gunga", aquela "bilola". Que maçada! Tem que começar tudo de novo. E talvez você tenha até que modificar o seu próprio conceito de eficiência, porque, quem sabe, se um nem tão espadaúdo, mais magrinho, menos coxudo, glabro, te faça uma boa surpresa. Por toda essa ginástica mental, às vezes muito cansativa, é que seria criterioso o nu masculino total nesses clubes de agora. O cara já vem pronto. É só ter boa memória. E se você saiu mentindo que precisava visitar tua amiga no hospital, e há um marido ou um antigo amante ressonando na tua cama, ele vai se deliciar com a tua inesperada iniciativa, e vai até perguntar:

O que foi? Você parece aquela outra de antes...
Ah, fico tão cheia de vida quando vejo gente doente....
Não diga... Por que?

Porque a vida acaba depressinha, e morto não transa, né bem?
Pois então vá. Todo dia, querida. Te fez bem.

E você irá a cada noite toc toc toc, olhar aquele cara todo nu, aquele que você escolheu de "pantaleão", ou "cana", ou "camandro", ou "ponteiro", enfim, de estrovenga perfeita, para o conforto, o excelente rendimento, o puro gozo da tua fantasia. Muito boa noite, senhoras.

Hilda Hilst (domingo, 12 de julho de 1992).

E este é o livro citado...




3 comentários:

Hermes Bernardi Jr. disse...

Fiqei muito a fim de ler Hilda. Tenho aqui uma coletânea de suas peças e o texto que Caio F. Abreu escreveu para/sobre ela "Por onde andará Dulce Veiga". A "Dulce" é a própria Hilda.

Cheguei a ver a cena de você lendo, rindo no ônibus e as pessoas te olhando... muito boa a descrição da cena.

Quanta leitura! Quando crescer quero ser como você (rs).

Abraços

Hermes Bernardi Jr. disse...

Ah, que capa, hein! Econômica e linda.

claab disse...

Ja li algumas páginas deste livro, de fato mto bom.

bom gosto literário é o que há.

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